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Superbactérias em cães e gatos: estudos recentes confirmam avanço da resistência antimicrobiana e alertam riscos à saúde pública

A resistência antimicrobiana (RAM) em pequenos animais domésticos tornou-se uma das preocupações mais urgentes da medicina veterinária mundial. Estudos científicos publicados entre 2025 e janeiro de 2026 indicam que cães e gatos não apenas abrigam bactérias multirresistentes, mas também podem compartilhá-las com seus tutores, reforçando o risco sanitário dentro do ambiente doméstico sob a perspectiva da Saúde Única.


Números que preocupam: o que os estudos mais recentes mostram


Um estudo publicado em maio de 2025 pela Universidade de Bologna, Itália, analisou 30 meses de isolados clínicos provenientes de infecções do trato urinário em cães e gatos atendidos em hospital veterinário universitário. Os resultados foram expressivos: resistência antimicrobiana esteve presente em 75% dos isolados clínicos, enquanto a multirresistência atingiu 37% dos casos, principalmente contra antibióticos de primeira linha como penicilinas e fluoroquinolonas.


A pesquisa também identificou associação direta entre histórico terapêutico e resistência bacteriana. O uso prévio de amoxicilina-clavulanato, marbofloxacina, enrofloxacina e piperacilina-tazobactam esteve significativamente relacionado a maiores taxas de multirresistência.


Na China, um levantamento da rede CARPet, publicado em fevereiro de 2025 no JAC-Antimicrobial Resistance da Oxford Academic, analisou 5.253 isolados bacterianos provenientes de cães e gatos em hospitais veterinários de 30 províncias. As bactérias mais frequentes foram Escherichia coli (14,5%) e Staphylococcus pseudintermedius (13,6%). A E. coli apresentou alta resistência à ampicilina e ao cefpodoxime, variando entre 56,8% e 73,2%.


Os autores concluíram que hospitais veterinários já podem ser considerados ambientes de alto risco para disseminação da resistência antibacteriana, cenário semelhante ao observado na medicina humana.


Europa: vigilância insuficiente e lacunas regulatórias


Uma revisão narrativa publicada em junho de 2025 na revista Animals, conduzida por pesquisadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, avaliou o cenário europeu sob a perspectiva de Saúde Única. Os dados indicaram níveis preocupantes de resistência, alcançando até 50% em gatos na Dinamarca e 40% em cães na França.


O trabalho aponta uma falha estrutural relevante: a ausência de um sistema obrigatório e harmonizado de vigilância europeia gera lacunas significativas de dados, dificultando o monitoramento e o controle efetivo da resistência antimicrobiana em animais de companhia.


Segundo os autores, a implementação urgente de sistemas de vigilância robustos, regulamentações veterinárias mais rigorosas e programas vinculantes é essencial para evitar que a resistência atinja níveis incontroláveis.


Transmissão entre pets e tutores: o elo doméstico confirmado


Estudo publicado em janeiro de 2026 no International Journal of Molecular Sciences investigou a transmissão de Enterococcus entre animais de companhia e seus tutores em domicílios de Lisboa, Portugal. Amostras fecais de 17 animais e 11 tutores demonstraram perfis de resistência e características de virulência semelhantes, reforçando a hipótese de troca bacteriana bidirecional dentro do mesmo lar.


A American Society for Microbiology também reforça essa preocupação. Em análise publicada em abril de 2025 com 940 isolados bacterianos de infecções em animais de companhia, quase 80% apresentaram resistência a pelo menos um antibiótico e aproximadamente 45% foram classificados como multirresistentes. Entre os agentes identificados estavam Enterococcus faecium, Klebsiella pneumoniae e Pseudomonas aeruginosa, espécies também relevantes na medicina humana.


Brasil: tema ainda subexplorado


No Brasil, estudo publicado em março de 2025 na Revista de Gestão Social e Ambiental avaliou o papel dos animais de companhia na disseminação da resistência antimicrobiana sob a ótica da Saúde Única. Os resultados destacam a necessidade de protocolos de controle de infecção em ambientes hospitalares humanos e veterinários, além de diretrizes nacionais mais consistentes para o uso responsável de antimicrobianos.


Os autores ressaltam que a resistência antimicrobiana em animais de companhia ainda permanece subexplorada no país, indicando uma importante lacuna científica e sanitária.


O que muda na prática clínica veterinária


Diante desse cenário global, as implicações para a rotina clínica tornam-se evidentes. A realização de cultura bacteriana com antibiograma deve preceder a prescrição antimicrobiana sempre que possível, especialmente em infecções recorrentes ou em pacientes com histórico prévio de tratamento.


O uso empírico de antibióticos de amplo espectro sem confirmação laboratorial é atualmente considerado um dos principais fatores que impulsionam a resistência dentro dos próprios consultórios veterinários.


A aplicação de diretrizes internacionais para infecções do trato urinário como ferramenta de stewardship antimicrobiano demonstrou reduzir significativamente a multirresistência ao longo de 30 meses de acompanhamento, evidenciando que mudanças de protocolo clínico produzem impacto real e mensurável.


Fonte:

Scarpellini et al. Animals 2025, 15, 1547 — doi: 10.3390/ani15111547

Monteiro et al. Animals 2025, 15, 1708 — doi: 10.3390/ani15121708

Liu et al. JAC-Antimicrobial Resistance 2025, 7(1) — doi: 10.1093/jacamr/dlaf007

Medeiros et al. RGSA 2025, 19(3) — doi: 10.24857/rgsa.v19n3-114

ASM.org — “The Link Between Pets, People and Antimicrobial Resistance” (abr/2025)

Int. J. Mol. Sci. 2026, 27(2), 654 — doi: 10.3390/ijms27020654


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