Caso Clínico - Emergência em cães
- Vet News
- 15 de fev.
- 3 min de leitura
Relato de caso clínico descreve conduta diagnóstica e intervenção cirúrgica em trauma torácico penetrante com evolução clínica satisfatória.

Um relato de caso publicado na Medvep – Revista Científica de Medicina Veterinária descreve o manejo de um cão diagnosticado com pneumotórax aberto associado a hemotórax após trauma torácico penetrante causado por mordedura. A abordagem inicial conservadora mostrou-se insuficiente para restaurar a pressão negativa intratorácica e estabilizar o quadro clínico, sendo indicada toracotomia exploratória de emergência com lobectomia pulmonar total. A evolução pós-operatória foi considerada satisfatória.
CONTEXTUALIZAÇÃO CLÍNICA
O pneumotórax aberto ocorre quando há comunicação direta entre o ambiente externo e o espaço pleural, comprometendo a pressão negativa necessária para a expansão pulmonar. Em situações traumáticas, pode estar associado ao hemotórax, caracterizado pela presença de sangue na cavidade pleural.
A combinação dessas duas condições representa emergência médica, pois compromete simultaneamente ventilação e perfusão, podendo evoluir rapidamente para hipóxia grave, choque hipovolêmico e parada cardiorrespiratória se não houver intervenção imediata.
ANAMNESE
O paciente era um cão sem raça definida, macho, quatro anos de idade, pesando aproximadamente 10 kg. O tutor relatou episódio recente de agressão por outros cães, com múltiplas mordeduras na região torácica.
Na admissão, o animal apresentava:
• Dispneia intensa
• Taquipneia marcada
• Cianose de mucosas
• Letargia
• Ferimento penetrante na parede torácica esquerda com saída de sangue espumoso
A presença de sangue aerado pelo ferimento sugeria comprometimento pulmonar direto.
EXAME FÍSICO E ACHADOS COMPLEMENTARES
A avaliação inicial revelou saturação periférica de oxigênio reduzida e padrão respiratório superficial. À auscultação torácica, observou-se diminuição dos sons pulmonares no hemitórax esquerdo.
As primeiras intervenções incluíram:
• Oxigenioterapia imediata
• Sedação leve para reduzir esforço respiratório
• Oclusão temporária do ferimento torácico com curativo estéril
• Fluidoterapia intravenosa para suporte hemodinâmico
Foi realizada toracocentese bilateral, com remoção de ar e sangue do espaço pleural, proporcionando melhora transitória do padrão respiratório. No entanto, a instabilidade ventilatória persistiu, indicando vazamento aéreo contínuo.

O diagnóstico foi estabelecido com base na associação de:
• Histórico de trauma penetrante
• Evidência clínica de pneumotórax aberto
• Presença de hemotórax confirmado por toracocentese
• Persistência de comprometimento ventilatório apesar da drenagem
A falha em restabelecer pressão negativa intratorácica sustentada indicou que a terapia conservadora isolada era insuficiente.
INDICAÇÃO CIRÚRGICA
Diante da deterioração clínica progressiva, optou-se por toracotomia exploratória emergencial. A decisão foi fundamentada em três fatores principais:
1. Vazamento aéreo persistente
2. Hemorragia intratorácica ativa
3. Instabilidade respiratória refratária
A intervenção precoce é considerada decisiva nesses casos para evitar hipóxia prolongada e agravamento sistêmico.

PROCEDIMENTO CIRÚRGICO
Durante a toracotomia intercostal esquerda, observou-se extensa laceração do lobo pulmonar diafragmático esquerdo, com comprometimento significativo do parênquima pulmonar.
Devido à extensão da lesão e impossibilidade de reparo conservador, foi realizada lobectomia pulmonar total do lobo afetado. A remoção do tecido lesionado permitiu:
• Controle definitivo do vazamento aéreo
• Controle da hemorragia
• Restauração da pressão negativa pleural
Ao término do procedimento, foi instalado dreno torácico para evacuação contínua de ar e fluidos no pós-operatório.


MANEJO PÓS-OPERATÓRIO
O paciente foi mantido sob monitorização intensiva nas primeiras 24 horas, incluindo:
• Avaliação seriada da oximetria
• Controle da drenagem torácica
• Monitorização da pressão arterial
• Analgesia multimodal
• Antibioticoterapia de amplo espectro
Nas primeiras horas após o procedimento, houve melhora significativa da ventilação e normalização progressiva da saturação de oxigênio.
A alimentação espontânea retornou ainda no primeiro dia pós-cirúrgico, indicando recuperação clínica favorável.
EVOLUÇÃO E DESFECHO
O dreno torácico foi removido após cessação do vazamento aéreo e estabilização respiratória. Durante cinco dias de internação, não foram observadas complicações como infecção pleural, recidiva de pneumotórax ou instabilidade hemodinâmica.
O paciente recebeu alta hospitalar com orientações para restrição de atividade física e acompanhamento ambulatorial.
O desfecho clínico foi considerado satisfatório dentro do período documentado.
DISCUSSÃO
O caso reforça que, embora o manejo conservador seja inicialmente indicado em muitos quadros de pneumotórax traumático, a persistência de instabilidade ventilatória deve levar à reavaliação rápida da conduta.
A lobectomia pulmonar, quando indicada, pode representar procedimento salvador, sobretudo em lesões extensas com comprometimento estrutural irreversível do parênquima pulmonar.
O reconhecimento precoce da falha terapêutica conservadora é determinante para o prognóstico.
APRENDIZADO CLÍNICO
Em pneumotórax aberto associado a hemotórax secundário a trauma penetrante:
• A estabilização inicial é prioritária
• A toracocentese pode ser medida temporária
• A persistência de vazamento aéreo exige intervenção cirúrgica
• A lobectomia pode ser necessária em lesões pulmonares extensas
A tomada de decisão baseada na evolução clínica é essencial para reduzir mortalidade.
PALAVRAS-CHAVE
pneumotórax aberto; hemotórax; toracotomia exploratória; lobectomia pulmonar; trauma torácico; cirurgia torácica veterinária; emergência respiratória.



Comentários