“A pior dor do mundo” não a fez desistir: mulher com neuralgia do trigêmeo se forma em Medicina Veterinária após 11 cirurgias
Carolina Arruda concluiu a graduação aos 30 anos, depois de conciliar os estudos com uma doença neurológica rara marcada por crises de dor facial intensa e incapacitante

Carolina Arruda, mineira conhecida nacionalmente por compartilhar sua trajetória de tratamento contra a neuralgia do trigêmeo, concluiu o curso de Medicina Veterinária aos 30 anos. A formatura ocorreu no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), em Bambuí, no Centro-Oeste do estado, e coincidiu com seu aniversário.
A conquista encerra uma trajetória acadêmica marcada por interrupções, internações e procedimentos médicos. Ao longo dos anos em que cursou a graduação, Carolina passou por 11 cirurgias e centenas de internações relacionadas à doença. Em determinado momento, precisou interromper o curso para se dedicar ao tratamento.
Em seu relato sobre a formatura, Carolina afirmou que entrou na faculdade caminhando e que deixa a graduação utilizando cadeira de rodas. Apesar das mudanças provocadas pela doença, ela manteve o objetivo de concluir a formação que desejava desde a infância.
A graduação precisou ser retomada em 2026. Segundo relatos publicados sobre sua trajetória, Carolina voltou a Bambuí em março para cumprir as etapas que ainda faltavam para a conclusão do curso. A meta era conseguir receber o diploma antes de completar 30 anos, finalmente um sonho alcançado.
Uma doença neurológica associada a uma das dores mais intensas conhecidas
A neuralgia do trigêmeo é uma doença que afeta o quinto par de nervos cranianos, o nervo trigêmeo, responsável por grande parte da sensibilidade da face e também pela inervação dos músculos da mastigação.
A doença é caracterizada por episódios recorrentes de dor facial extremamente intensa, geralmente descrita pelos pacientes como choque elétrico, pontada, facada ou descarga elétrica. As crises podem durar de uma fração de segundo a até dois minutos e podem ser desencadeadas por estímulos que normalmente não provocariam dor, como tocar o rosto, falar, mastigar, escovar os dentes ou receber uma corrente de ar.
Essas características fazem com que a neuralgia do trigêmeo esteja entre as condições dolorosas mais incapacitantes descritas pela medicina. A Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3) define a doença principalmente pela presença de crises recorrentes de dor intensa na distribuição de uma ou mais divisões do nervo trigêmeo, com características típicas e desencadeadas por estímulos inócuos.
A condição é considerada rara. Estudos epidemiológicos clássicos estimaram incidência anual em aproximadamente 4,3 casos para cada 100 mil pessoas, com taxas maiores entre mulheres. Revisões mais recentes mostram que as estimativas variam consideravelmente conforme a população estudada e os critérios diagnósticos utilizados.
Por que a doença provoca tanta dor?
O nervo trigêmeo possui três grandes divisões: oftálmica (V1), maxilar (V2) e mandibular (V3). Elas levam informações sensitivas de diferentes regiões da face ao sistema nervoso central.
Em uma parcela importante dos casos, a neuralgia está relacionada à chamada compressão neurovascular. Nessa situação, um vaso sanguíneo entra em contato com a raiz do nervo trigêmeo próximo à sua entrada no tronco encefálico. Quando essa relação produz alterações morfológicas no nervo, como deslocamento ou atrofia, o quadro pode ser classificado como neuralgia trigeminal clássica.
A compressão pode provocar alterações na mielina que recobre as fibras nervosas. Com a perda ou alteração dessa proteção, os circuitos responsáveis pela transmissão da informação sensitiva podem tornar-se hiperexcitáveis, favorecendo a geração anormal de sinais elétricos interpretados pelo cérebro como dor.
A fisiopatologia, entretanto, é mais complexa do que simplesmente a presença de um vaso próximo ao nervo. Estudos atuais apontam a participação de alterações periféricas e centrais, hiperexcitabilidade neuronal, sensibilização central e mudanças na plasticidade das redes cerebrais envolvidas na percepção e modulação da dor.
Isso também explica por que encontrar um vaso em contato com o trigêmeo em uma ressonância magnética, isoladamente, não significa necessariamente que aquela pessoa tenha neuralgia clássica. Contatos entre vasos e o nervo podem ser observados também em pessoas sem sintomas; para caracterizar a forma clássica, é necessário haver correlação clínica e alterações morfológicas compatíveis.
Um caso particularmente complexo
O caso de Carolina apresenta características consideradas incomuns. Segundo o especialista em dor Carlos Marcelo de Barros, presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), a paciente apresenta comprometimento bilateral e dos três ramos do nervo trigêmeo.
A forma típica da doença costuma ser unilateral e envolver uma ou mais divisões do nervo. O comprometimento bilateral é muito menos frequente. Estudos anteriores estimaram que apenas uma pequena parcela dos pacientes apresenta manifestações bilaterais.
A idade também chama atenção. A neuralgia do trigêmeo é mais frequentemente diagnosticada em pessoas mais velhas, embora possa ocorrer em indivíduos jovens. Quando surge precocemente, especialmente com características atípicas ou bilateralidade, a investigação de causas secundárias ganha importância.
Entre as condições que podem estar associadas à neuralgia trigeminal secundária estão esclerose múltipla, tumores e malformações vasculares, entre outras doenças capazes de afetar o nervo. Por isso, a avaliação costuma envolver exame neurológico e exames de imagem, especialmente ressonância magnética em casos selecionados.
Tratamento pode envolver medicamentos e cirurgia
O tratamento da neuralgia do trigêmeo depende da causa, do padrão da dor, da resposta aos medicamentos e das características individuais do paciente.
Os medicamentos tradicionalmente considerados de primeira linha são a carbamazepina e a oxcarbazepina, que atuam reduzindo a hiperexcitabilidade dos neurônios. Entretanto, efeitos adversos e perda de eficácia podem limitar seu uso em alguns pacientes.
Quando o tratamento medicamentoso não proporciona controle adequado ou provoca efeitos adversos importantes, procedimentos intervencionistas podem ser considerados.
Entre eles está a descompressão microvascular, cirurgia que busca afastar o vaso responsável pelo conflito do nervo trigêmeo. Existem ainda procedimentos percutâneos que lesionam seletivamente fibras do nervo e técnicas de radiocirurgia, utilizadas em situações específicas.
Em pacientes com dor extremamente complexa e refratária, podem ser utilizadas estratégias de neuromodulação e sistemas de administração de medicamentos, como estimuladores neurais e bombas de infusão.
Carolina passou por diferentes modalidades terapêuticas ao longo de sua trajetória. Entre os procedimentos realizados estão implantes de neuroestimuladores e uma bomba de infusão de analgésicos. A resposta, entretanto, foi limitada, evidenciando uma das principais dificuldades enfrentadas por pacientes com dor neuropática refratária: mesmo quando existem diversas possibilidades terapêuticas, nenhuma delas garante controle completo dos sintomas.
Da possibilidade de desistir ao diploma
A gravidade da doença chegou a levar Carolina a falar publicamente sobre a possibilidade de buscar morte assistida na Suíça em razão do sofrimento provocado pela dor. O relato ganhou repercussão nacional em 2024.
Na ocasião, ela passou a receber acompanhamento especializado e foi submetida a novas tentativas terapêuticas. A discussão também chamou atenção para um problema conhecido na medicina da dor: o impacto da dor crônica refratária não se limita ao sistema nervoso.
Dor persistente pode comprometer sono, mobilidade, capacidade de trabalho, relações sociais, autonomia e saúde mental. Por isso, o tratamento contemporâneo de síndromes dolorosas complexas tende a ser multidisciplinar, envolvendo neurologia, medicina da dor, neurocirurgia, fisioterapia, psicologia e outras áreas conforme a necessidade de cada paciente.
Um diploma depois de mais de uma década de doença
Carolina convive com a neuralgia do trigêmeo há cerca de 13 anos. Durante esse período, a doença transformou sua rotina, interrompeu temporariamente sua formação acadêmica e exigiu sucessivas hospitalizações e procedimentos.
Ainda assim, a conclusão do curso representou a realização de um projeto que havia começado muito antes do diagnóstico.
Ao completar 30 anos, Carolina recebeu o diploma de médica-veterinária — exatamente a profissão que havia escolhido para sua vida adulta.
Mais do que o encerramento de uma graduação, a formatura marca a conclusão de um projeto que precisou ser reconstruído diversas vezes diante de uma doença rara, incapacitante e de difícil controle.
A história também evidencia uma questão fundamental no campo da dor: para além dos números, exames e diagnósticos, o impacto de uma doença crônica precisa ser compreendido a partir da funcionalidade, autonomia e qualidade de vida de cada paciente.
Carolina conseguiu chegar ao diploma. Agora, começa uma nova etapa: descobrir como exercer a profissão que escolheu enquanto continua convivendo com uma das condições dolorosas mais complexas da neurologia.



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