Estudo da Embrapa revela padrão crítico de mastite crônica em rebanho leiteiro
- Vet News
- 19 de fev.
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Um estudo conduzido pela Embrapa Gado de Leite em Coronel Pacheco (MG) revelou que a concentração de casos de mastite clínica em poucos animais e a alta taxa de reincidência em quartos mamários específicos indicam um padrão crítico de infecção crônica. Durante 28 meses de monitoramento de um rebanho de 90 vacas holandesas mantidas em sistema Compost Barn, pesquisadores identificaram que o descarte estratégico deve ser o primeiro passo para melhoria da saúde mamária.
Concentração crítica de casos
O estudo, publicado nos Anais do XXVI Workshop de Iniciação Científica da Embrapa Gado de Leite, acompanhou um rebanho com produção média de 32 litros por vaca/dia no período de março de 2020 a junho de 2022. Os dados revelaram um achado preocupante: apenas 11 vacas (18,6% do total de animais com mastite) foram responsáveis por 72 casos clínicos, representando 50,3% de todos os episódios registrados no rebanho.
“Os resultados mostraram que o rebanho precisa de um ajuste no programa de controle e prevenção da mastite com ênfase na linha de ordenha e no descarte de vacas com infecção crônica e reincidência de casos clínicos”, concluíram os autores Marcilene Daniel Damasceno, Ana Flávia Novaes Gomes, João Pedro Ferreira de Melo e Guilherme Nunes de Souza.
Indicadores fora do padrão ideal
A pesquisa utilizou metodologia científica rigorosa, realizando contagem de células somáticas (CCS) mensal de todas as vacas em lactação, cultura microbiológica e registro detalhado de 143 casos de mastite clínica em 59 vacas. A análise comparativa com indicadores considerados ideais revelou múltiplos desvios.
Enquanto a CCS média do rebanho estava adequada (150.000 células/mL, abaixo do limite de 250.000), outros indicadores apresentaram valores preocupantes. A taxa de eliminação das infecções subclínicas foi de apenas 9,2%, muito abaixo dos 30% considerados ideais. A taxa de infecções crônicas alcançou 20,1%, quatro vezes superior ao ideal de 5%.
A incidência de mastite clínica registrada foi de 76 casos por 100 vacas/ano, três vezes maior que a incidência ideal de 25 casos. Além disso, cada vaca afetada apresentou média de 2,4 casos clínicos, quando o ideal seria menos de 1,4 casos por animal.
Padrão de reincidência indica cronicidade
Um dos achados mais relevantes do estudo foi a análise da probabilidade de reincidência. Os pesquisadores observaram que 50% dos casos de mastite clínica voltaram a ocorrer no mesmo quarto mamário, enquanto apenas 18% ocorreram em quartos diferentes. Esta diferença estatisticamente significativa indica que não se tratava de novas contaminações, mas sim de infecções crônicas estabelecidas que não foram eliminadas pelo tratamento.
Das 59 vacas que apresentaram mastite clínica, 44,1% tiveram dois ou mais episódios ao longo do período estudado, com algumas vacas chegando a apresentar mais de três casos clínicos.
Perfil microbiológico: predominância contagiosa
A cultura microbiológica realizada em junho de 2022 com 95 vacas em lactação identificou que 36,8% das infecções subclínicas eram causadas por Staphylococcus coagulase negativo, seguido por 9,5% de Streptococcus dysgalactiae. Cerca de 90% dos patógenos isolados eram Gram positivos, caracterizando um padrão predominantemente contagioso.
Nos casos clínicos, Streptococcus uberis (patógeno ambiental) foi identificado em 28,8% dos isolamentos, seguido por Staphylococcus coagulase negativo (19,2%) e Streptococcus dysgalactiae (7,7%). Entre os patógenos Gram negativos, Escherichia coli representou 75% dos casos.
Um dado importante é que 63,4% dos casos clínicos não apresentaram crescimento bacteriano na cultura realizada na fazenda, o que pode estar relacionado ao momento da coleta ou à presença de patógenos de difícil isolamento.
Implicações práticas para o controle
Os pesquisadores enfatizam que a baixa taxa de eliminação das infecções subclínicas, associada à alta taxa de cronicidade e à elevada probabilidade de reincidência no mesmo quarto mamário, sugere que vacas cronicamente infectadas estão atuando como reservatórios de patógenos no rebanho.
“O descarte de vacas com infecção crônica e com reincidência de casos clínicos deve ser o primeiro passo para melhoria da saúde da glândula mamária do rebanho estudado”, destacam os autores no documento.
O estudo demonstra que o tratamento repetitivo de animais com infecção crônica tem eficácia limitada e que a análise de indicadores epidemiológicos múltiplos é essencial para identificar padrões que não são evidentes na rotina diária.
Próximos passos
A pesquisa recomenda ajustes no programa de controle com ênfase em três pilares: reforço nos procedimentos de linha de ordenha para prevenir novas infecções, descarte estratégico de vacas que apresentem infecção crônica documentada ou múltiplos episódios de mastite clínica, e monitoramento contínuo de indicadores individuais e de rebanho para tomada de decisão baseada em dados.
INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES:
* Local: Embrapa Gado de Leite, Coronel Pacheco - MG
* Período: Março de 2020 a junho de 2022 (28 meses)
* Rebanho: 90 vacas holandesas em lactação
* Sistema: Compost Barn tipo túnel de vento
* Produção: 32 litros/vaca/dia
* Instituições: Embrapa Gado de Leite, UFJF, UFF
* Apoio: CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
SAIBA MAIS:
* Damasceno, M.D. et al. Dinâmica e padrão de infecção dos casos de mastite subclínica e clínica em rebanho bovino mantido em Compost Barn, 2020 a 2022. Anais do XXVI Workshop de Iniciação Científica da Embrapa Gado de Leite. Documento 271, p.44-48, 2022.
* Embrapa Gado de Leite: www.embrapa.br/gado-de-leite
PALAVRAS-CHAVE: mastite bovina, infecção crônica, Staphylococcus coagulase negativo, descarte estratégico, Embrapa, células somáticas, bovinocultura leiteira, sanidade do rebanho



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