Conflito no Oriente Médio acende alerta para o agronegócio de Santa Catarina por custos, exportações e risco logístico
- Vet News
- 16 de mar.
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Escalada da tensão internacional pressiona fretes, seguros, fornecimento de fertilizantes e amplia a preocupação de cadeias estratégicas da produção animal em Santa Catarina

A intensificação do conflito no Oriente Médio passou a ser acompanhada com preocupação crescente pelo agronegócio de Santa Catarina. O avanço das tensões geopolíticas na região, com reflexos sobre rotas marítimas estratégicas e sobre o comércio internacional de energia e insumos, colocou em estado de alerta uma das cadeias produtivas mais relevantes do Sul do Brasil.
A preocupação central envolve o aumento dos custos logísticos, o encarecimento do transporte internacional, os riscos para exportações e a vulnerabilidade no abastecimento de fertilizantes e ureia, insumos fundamentais para a produção agrícola e, de forma indireta, para a sustentação das cadeias de aves e suínos do estado.
Segundo dados divulgados pelo Observatório Agro Catarinense e repercutidos por veículos regionais, as exportações do agronegócio catarinense para países direta ou indiretamente impactados pelo conflito somaram cerca de US$ 915 milhões em 2025. O valor é expressivo e ajuda a dimensionar o grau de exposição de Santa Catarina às turbulências internacionais. O montante supera, inclusive, o destinado pelo agro catarinense à União Europeia no mesmo período, o que mostra como os mercados relacionados ao Oriente Médio ocupam posição estratégica no escoamento da produção estadual.
A apreensão não se limita ao valor financeiro negociado. O problema é estrutural. Em estados com forte integração entre agricultura, produção de grãos, proteína animal, agroindústria e exportação, qualquer desorganização no fluxo marítimo internacional pode produzir um efeito em cadeia. O fechamento ou a restrição de rotas sensíveis, como o Estreito de Ormuz, citado nas análises do setor, eleva o custo do frete, encarece o seguro das cargas, amplia a imprevisibilidade operacional e aumenta o risco de atrasos ou rupturas em contratos de exportação e importação. Como consequência, produtores, agroindústrias e empresas fornecedoras passam a operar sob maior incerteza.
No caso catarinense, a preocupação é ainda mais delicada porque o estado possui forte dependência de cadeias ligadas à produção animal intensiva, especialmente aves e suínos, segmentos altamente sensíveis ao custo da alimentação e à disponibilidade de insumos agrícolas. Fertilizantes e ureia são itens decisivos para a produtividade do milho, um dos principais componentes das dietas animais. Qualquer alta relevante nesses insumos tende a repercutir no custo de produção ao longo de toda a cadeia, desde o campo até os frigoríficos e o mercado exportador.
As análises publicadas apontam que países do Oriente Médio, como Omã, Catar, Bahrein, Arábia Saudita, Egito e Irã, estão entre fornecedores importantes de fertilizantes e ureia ao Brasil. Esse fator amplia a exposição do setor agropecuário nacional — e catarinense em particular — às instabilidades da região. Quando a tensão internacional cresce e o petróleo sobe, o impacto pode ocorrer por diferentes vias ao mesmo tempo: aumento do custo da energia, encarecimento do transporte marítimo, maior valor do seguro internacional, dificuldade de fornecimento de insumos e necessidade de reorganizar origens de compra em prazos curtos.
Outro ponto sensível está nas exportações. O Irã aparece como um dos mercados de maior risco na análise do setor. De acordo com o Observatório Agro Catarinense, em 2025 houve queda de 1,3% no valor exportado, mas aumento de 57,7% no volume embarcado, que superou 151 mil toneladas. O dado é relevante porque indica maior movimentação física de cargas para uma área submetida a elevado risco geopolítico, logístico, financeiro e comercial. Em outras palavras, Santa Catarina passou a enviar mais produto em volume para um mercado sujeito a crescente instabilidade, o que aumenta a vulnerabilidade da cadeia exportadora.
A leitura econômica desse cenário é direta: mesmo quando o comércio não é imediatamente interrompido, a percepção de risco já produz efeitos práticos. Empresas exportadoras precisam rever prazos, contratos, apólices, custos de frete, disponibilidade de navios e alternativas de rota. Ao mesmo tempo, importadores de insumos tendem a recalcular estoques, buscar novos fornecedores e reorganizar o planejamento de compra.
Em cadeias de proteína animal, esse movimento é especialmente sensível, porque a previsibilidade de custos e abastecimento é decisiva para manter competitividade em mercados externos.
Especialistas ouvidos nas análises regionais defendem que o momento exige planejamento mais rigoroso de estoques e diversificação de rotas comerciais. Também ganha força a necessidade de buscar fontes alternativas de fertilizantes, com menção a fornecedores como Marrocos, Canadá e China, ainda que essas opções possam não contar com as mesmas condições comerciais preferenciais. O redesenho das origens de compra, porém, nem sempre é simples: envolve preço, disponibilidade, tempo de entrega, logística portuária e segurança de abastecimento.
Para Santa Catarina, a situação tem um componente particularmente estratégico porque o estado se consolidou como referência nacional e internacional em sanidade animal, exportação de carnes e eficiência agroindustrial. Em um ambiente de crise global, manter a regularidade do fluxo de insumos e a estabilidade da logística passa a ser tão importante quanto preservar status sanitário e qualidade produtiva. É justamente por isso que o setor trata a escalada no Oriente Médio não como um fato distante, mas como uma variável com potencial de repercussão concreta sobre custos, margens, contratos e competitividade.
Os impactos também podem ser percebidos em uma dimensão mais ampla do agronegócio brasileiro. Estudos e reportagens sobre o tema indicam que o Oriente Médio responde por uma fatia relevante das exportações nacionais de produtos como carne de frango, milho, açúcar e carne bovina. Em algumas cadeias, a dependência regional é significativa, o que aumenta o risco comercial diante de uma eventual disrupção prolongada. Para Santa Catarina, cuja participação nas exportações de proteína animal é historicamente robusta, esse fator reforça a necessidade de monitoramento contínuo.

No plano interno, a consequência mais imediata tende a ser a compressão de margens.
Com frete mais caro, seguros pressionados, fertilizantes sujeitos a alta e custos energéticos mais voláteis, a rentabilidade do setor pode ser afetada em diferentes etapas. Isso vale para o produtor rural, para a agroindústria, para empresas de nutrição e insumos, para exportadores e para operadores logísticos. Em cenários prolongados de instabilidade, parte desse aumento de custo também pode chegar ao consumidor, seja por pressão sobre alimentos, seja por reajustes indiretos ao longo da cadeia produtiva.
A notícia repercutida em Santa Catarina, portanto, vai além de uma análise conjuntural sobre política internacional. Ela revela como crises geopolíticas podem se converter rapidamente em fatores econômicos concretos para o agronegócio. No caso catarinense, o alerta está centrado em três frentes principais: exportações expostas a mercados sensíveis, dependência de insumos estratégicos vindos de regiões sob tensão e elevação dos custos logísticos em um momento de forte competitividade global.
Para o setor veterinário e para os profissionais ligados à produção animal, o tema merece atenção especial. Alterações no custo de grãos, fertilizantes e transporte podem repercutir sobre nutrição, planejamento zootécnico, manejo de rebanhos, escalas de produção e até decisões sanitárias em sistemas de criação intensiva. Em cadeias como avicultura e suinocultura, em que o controle técnico e econômico é extremamente sensível, movimentos internacionais dessa natureza deixam de ser um assunto distante e passam a integrar o cálculo diário do campo e da indústria.
Em síntese, a escalada do conflito no Oriente Médio colocou o agronegócio de Santa Catarina em compasso de vigilância. Com quase US$ 915 milhões exportados em 2025 para países impactados direta ou indiretamente pela crise, forte dependência de insumos estratégicos e elevado peso das cadeias de proteína animal, o estado observa um cenário em que geopolítica, comércio exterior e custo de produção se entrelaçam de forma cada vez mais intensa. O efeito imediato é o aumento da cautela. O desafio de médio prazo será preservar competitividade e previsibilidade em um ambiente internacional cada vez mais instável.



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